O que muitos chamam globalização
neoliberal insere-se na linha tradicional de desenvolvimento
do capitalismo e do imperialismo de sempre. Ao seu abeiro,
e nomeadamente desde meados do decénio de 1990 as
transações especulativas cresceram espectacularmente
ao tempo que o fizeram as fussões de capitais e uma
cheia de práticas deslocalizadoras que permitem transladar
a outros países empresas inteiras em procura de salários
mais baixos ou regimes autoritários. O resultado
fundamental destas tendências tem sido uma desaparição
geral de controles que facilita os movimentos dos capitais
no merco dum autêntico paraíso fiscal de escala
planetária. Para além disso, as novas regras
permitiram, também, um rápido crescimento
do crime organizado.
Por muito que os seus defensores sostenham o contrário,
a globalização neoliberal não reduziu,
antes ao contrário, a desigualdade e a pobreza. Mais
de três mil milhões de pessoas –um 70%
delas, por certo mulheres- malvivem com menos de dois dólares
cada dia. Por enquanto, as diferenças entre privilegiados
e preteridos não deixaram de se acrescentar num cenário
no que a maioria das ganâncias correspondem, como
era de esperar, aos três grandes núcleos do
capitalismo internacional: Estados Unidos, a União
Europeia e o Japão. Há quem tem falado duma
sociedade 20/80 para descrever esta situação:
o projecto da globalização neoliberal implica
que uma quinta parte da população do planeta
viverá na opulência, por enquanto as quatro
restantes ficarão condenadas à mais dura luta
pela sobrevivência. Para que nada falte, ao cabo,
a globalização que conhecemos implica também
uma evidente homogeneização cultural, e com
ela uma persistente agressão dirigida contra as culturas
minorizadas.
Os movimentos de resistência global apareceram, naturalmente,
para dar resposta à desfeita da globalização
neolibera. Mas parece que na sua origem é preciso
procurar, também, a anceio de fazer frente a muitas
das misérias que se têm instalado amiúdo
no discurso e no comportamento da esquerdas oficiais, da
mão de partidos burocratizados, sindicatos que perderam
toda vontade de resistência ou organizações
não governamentais entregues à preservação
de bem pagados postos de trabalho. Ante esta realidade os
movimentos estão a reivindicar a democracia de base,
ao tempo que postulam projectos de aberta e radical contestação.
Em eles estão presentes, por demais, o que alguns
chamaram “as novas minorias activas”, geradas
pela radicalização das condições
laborais dum capitalismo cada vez mais agressivo, e sectores
da população que, em posição
mais cómoda, tem motivos para receiar dum sistema,
que não duvida em explorar, como sempre, o Terceiro
Mundo e em agredir o meio em franca redução
dos direitos das gerações vindouras.
As macromanifestações que, ao longo de 2002,
se registaram em tantos lugares, reflectem o facto inegável
de que os movimentos de resistência global estão
a crescer e disfrutam de apoios sociais importantes. Isso
é assim mália as tramadas campanhas desenvolvidas
contra eles. Quantas pessoas teriam saído às
ruas de Barcelona o 16 de Março se na semana anterior
não se tivesse verificado uma poderosa campanha de
demonização e criminalização
dos movimentos? Sobre esta base, muito esperançadora,
as redes de resistência hão de enfrentar, porém,
problemas que não são menores. O primeiro
deles é o de converter a sua força em estruturas
e presenças com vocação de permanência.
Ao respecto, o que até hoje foi um elemento decissivo
de promoção dos movimentos –a organização
de contracimeiras- pode devir um obstáculo. Temos
um moinho que produz energia, mas ainda carecemos dos condutos
que permitam convertê-la em luz em casas e bairros.
Outro problema de importáncia é o relativo
aos referentes políticos correspondentes aos movimentos.
Se para uns esses referentes devem procurar-se nas forças
de sempre e para outros é preciso criar formações
de carácter novo, não falta quem rejeita esta
discussão em proveito de propostas de natureza claramente
libertária. Por detrás destas disputas revela-se,
contudo, um processo muito delicado como é a irrupção,
pressumivelmente carregada de oportunismo e segundas intenções,
de segmentos significados da socialdemocracia tradicional
no seio dos movimentos. Estes devem clarificar, em qualquer
caso, qual é o seu propósito fundamental em
dois terrenos decissivos. Que é o que querem: crescer
eles mesmos ou, pelo contrário, influenciar o comportamento
de outros? A quem desejam se dirigir com preferência:
à esquerda de sempre ou a camadas muito mais amplas
da sociedade.
Em espera de respostas para estas perguntas, os movimentos
oferecem três virtudes que não são desprezáveis:
uma contestação global –frente às
demandas parcializadas que, mália os seus propósitos,
caracterizaram tantas vezes a muitos dos “novos movimentos
sociais”-, uma possibilidade real de vinculação
com os sectores mais lúcidos do movimento operário
–com eles partilham conceitos como os de “exploração”,
“exclussão” e “feminização
da pobreza”- e uma vontade certa de configurar redes
transnacionais que rompam com a condição etnocêntrica
de muitas das propostas que, ao longo do século XX,
abrolharam na esquerda do Norte desenvolvido. E é
que os movimentos estão chamados a atribuir uma clara
prioridade daos problemas dos deserdados do planeta e aos
direitos das gerações que ainda estão
por vir.
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