Sociedade Cultural e Desportiva do Condado
Correio Electrónico E-mail
|
Voltar à página principal Principal
30 anos em galego
SCD CONDADO
:: Quem somos
:: XXIII Festival
:: História
:: Arquivo Gráfico
:: Livros editados
:: Notícias
:: Contacto
:: Textos
Publicado no livro do XVII Festival. Outro Mundo é Possível.
Texto de Carlos Taibo para o XVI Festival
Movimentos que resistem

O que muitos chamam globalização neoliberal insere-se na linha tradicional de desenvolvimento do capitalismo e do imperialismo de sempre. Ao seu abeiro, e nomeadamente desde meados do decénio de 1990 as transações especulativas cresceram espectacularmente ao tempo que o fizeram as fussões de capitais e uma cheia de práticas deslocalizadoras que permitem transladar a outros países empresas inteiras em procura de salários mais baixos ou regimes autoritários. O resultado fundamental destas tendências tem sido uma desaparição geral de controles que facilita os movimentos dos capitais no merco dum autêntico paraíso fiscal de escala planetária. Para além disso, as novas regras permitiram, também, um rápido crescimento do crime organizado.

Por muito que os seus defensores sostenham o contrário, a globalização neoliberal não reduziu, antes ao contrário, a desigualdade e a pobreza. Mais de três mil milhões de pessoas –um 70% delas, por certo mulheres- malvivem com menos de dois dólares cada dia. Por enquanto, as diferenças entre privilegiados e preteridos não deixaram de se acrescentar num cenário no que a maioria das ganâncias correspondem, como era de esperar, aos três grandes núcleos do capitalismo internacional: Estados Unidos, a União Europeia e o Japão. Há quem tem falado duma sociedade 20/80 para descrever esta situação: o projecto da globalização neoliberal implica que uma quinta parte da população do planeta viverá na opulência, por enquanto as quatro restantes ficarão condenadas à mais dura luta pela sobrevivência. Para que nada falte, ao cabo, a globalização que conhecemos implica também uma evidente homogeneização cultural, e com ela uma persistente agressão dirigida contra as culturas minorizadas.

Os movimentos de resistência global apareceram, naturalmente, para dar resposta à desfeita da globalização neolibera. Mas parece que na sua origem é preciso procurar, também, a anceio de fazer frente a muitas das misérias que se têm instalado amiúdo no discurso e no comportamento da esquerdas oficiais, da mão de partidos burocratizados, sindicatos que perderam toda vontade de resistência ou organizações não governamentais entregues à preservação de bem pagados postos de trabalho. Ante esta realidade os movimentos estão a reivindicar a democracia de base, ao tempo que postulam projectos de aberta e radical contestação. Em eles estão presentes, por demais, o que alguns chamaram “as novas minorias activas”, geradas pela radicalização das condições laborais dum capitalismo cada vez mais agressivo, e sectores da população que, em posição mais cómoda, tem motivos para receiar dum sistema, que não duvida em explorar, como sempre, o Terceiro Mundo e em agredir o meio em franca redução dos direitos das gerações vindouras.

As macromanifestações que, ao longo de 2002, se registaram em tantos lugares, reflectem o facto inegável de que os movimentos de resistência global estão a crescer e disfrutam de apoios sociais importantes. Isso é assim mália as tramadas campanhas desenvolvidas contra eles. Quantas pessoas teriam saído às ruas de Barcelona o 16 de Março se na semana anterior não se tivesse verificado uma poderosa campanha de demonização e criminalização dos movimentos? Sobre esta base, muito esperançadora, as redes de resistência hão de enfrentar, porém, problemas que não são menores. O primeiro deles é o de converter a sua força em estruturas e presenças com vocação de permanência. Ao respecto, o que até hoje foi um elemento decissivo de promoção dos movimentos –a organização de contracimeiras- pode devir um obstáculo. Temos um moinho que produz energia, mas ainda carecemos dos condutos que permitam convertê-la em luz em casas e bairros.

Outro problema de importáncia é o relativo aos referentes políticos correspondentes aos movimentos. Se para uns esses referentes devem procurar-se nas forças de sempre e para outros é preciso criar formações de carácter novo, não falta quem rejeita esta discussão em proveito de propostas de natureza claramente libertária. Por detrás destas disputas revela-se, contudo, um processo muito delicado como é a irrupção, pressumivelmente carregada de oportunismo e segundas intenções, de segmentos significados da socialdemocracia tradicional no seio dos movimentos. Estes devem clarificar, em qualquer caso, qual é o seu propósito fundamental em dois terrenos decissivos. Que é o que querem: crescer eles mesmos ou, pelo contrário, influenciar o comportamento de outros? A quem desejam se dirigir com preferência: à esquerda de sempre ou a camadas muito mais amplas da sociedade.

Em espera de respostas para estas perguntas, os movimentos oferecem três virtudes que não são desprezáveis: uma contestação global –frente às demandas parcializadas que, mália os seus propósitos, caracterizaram tantas vezes a muitos dos “novos movimentos sociais”-, uma possibilidade real de vinculação com os sectores mais lúcidos do movimento operário –com eles partilham conceitos como os de “exploração”, “exclussão” e “feminização da pobreza”- e uma vontade certa de configurar redes transnacionais que rompam com a condição etnocêntrica de muitas das propostas que, ao longo do século XX, abrolharam na esquerda do Norte desenvolvido. E é que os movimentos estão chamados a atribuir uma clara prioridade daos problemas dos deserdados do planeta e aos direitos das gerações que ainda estão por vir.
 

Voltar a Textos

XXIII Festival da Poesia no Condado



 SCD CONDADO - 2010