Ser ou nom ser
–eis a questom; será maior nobreza da alma
sofrer a funda e as flechas da fortuna ultrajante ou tomar
as armas contra um mar de infortúnios, opondo-lhes
um fim.
William Shakespeare
Sube ou baixa? É um modo de estar ou umha forma
de ser? Que fai o galego no alto da escaleira?
Andar às voltas com a calaveira. Ser ou nom ser,
estar ou nom estar, ser e nom estar, estar e nom ser. Eis
o dilema! Ser ou estar, estar sem ser, estar por estar,
estar ao preço de nom ser. Somos e nom somos. Ser
o que somos e em tanto que somos ser. Ser porque no ser
nos vai o seguir sendo. Ser porque se é. Ser porque
o ser é e a nada nom é. Nom ser por ser, nem
ser “em”, ser “com” como deve ser.
Que fai o galego no alto da escaleira? É um modo
de estar ou umha forma de ser? Sube ou baixa?
Baixar ou subir, ir ou vir, ficar... talvez só convir.
Escaleira arriba ou abaixo um mesmo caminho a percorrer.
O galego nunca está na mesma escaleira ainda que
o poda parecer. A sua forma é o fundo. Mira para
onde o galego mira, nom te fixes nos pés.
Sube ou baixa? É un modo de estar ou umha forma
de ser? No alto da escaleira, que está o galego a
fazer?
Dormir... talvez sonhar. Hesitar entre perder-se afirmando-se
ou lentamente esmorecer. Desde o alto, mira o mundo com
os olhos dos que ainda estám por nascer. Eis, o galego,
a tua razom de ser. Grava a ferro quente o futuro no teu
ser. O sol e o rio som novos cada dia, o devir só
é invençom, vontade, poder. Poder estar ou
poder ser? Ser poder para estar e ser. Deixa de duvidar,
o que se poda dizer e pensar, deve ser. Nom te mires no
espelho dos outros se te queres reconhecer. Ti és
Ninguém contra Polifemo, razom contra a semrazom,
flagráncia permanente, persistência no ser,
pólem que aguarda um ruivo amanhecer.
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