Nos anos 70
o movimento vizinhal e a oposiçom politica conseguirom
frear o projecto de instalaçom de umha barragem no
rio Minho ao seu passo polo Condado. Hoje, a comarca vê-se
na obriga de fazer frente a um plano semelhante, eufemisticamente
de menor impacto mas qualitativamente pior. A Sociedade
Cultural e Desportiva do Condado involucrou-se nas reivindicaçons
contra o Salto de Sela e volve hoje, mais de vinte anos
depois, a luitar contra as barragens.
Salvemos os rios foi o lema da XIX ediçom do festival
da Poesia do Condado. Mais umha vez, poesia em luita num
dos encontros mais salientáveis para as letras galegas.
E, como sempre, nom só. Cinema, pintura, música,
escultura, jogos, contos, fotografia... Todo, no Festival
da Poesia no Condado, entre o 1 e o 3 de Setembro.
O festival arrancou a quinta-feira 1 de Setembro com a
Jornada do Audiovisual Galego. Abriu a mostra o fragmento
que se conserva do documentário Galicia, de Carlos
Velo. A continuación, O monte é noso, do catalám
Llorenç Soler, e a recém estreada CCCV. CineClubeCarlosVarela,
de Ramiro Ledo Cordeiro, que o próprio director apresentou.
O filme serve de homenagem ao falecido cineasta Carlos Varela
Veiga, retratista da contestaçom política
dos anos 70. Ainda que estava no programa, nom foi possível
projectar Mamasunción, de Chano Piñeiro, para
encerrar a mostra de cinema histórico. O remate da
jornada pugêrom-no as curtas-metragens premiadas na
última ediçom do Festival de Cans, no Porrinho.
E o Festival da Poesia nom fazia mais que começar.
Para a segunda jornada do festival, Noite Brasileira. As
Covas de Dona Urraca volvérom acolher um concerto
íntimo, desta volta cheio de clásicos brasileiros
cantados por Alex Liberallis e o Trio Pagú, mesturados
com composiçons próprias do conjunto assentado
em Braga, e com a feijoada e a caipirinha, que figêrom
repetir a mais de um.
Para o sábado esperava umha longa jornada de trabalho,
assim que amenceu mui cedo para os organizadores do festival.
O dia apresentou-se calmo e soleado, esperançador
tendo em conta os precedentes do ano anterior, quando a
desfeita de umha tronada impediu que desenvolvera o festival
completo. Começava a haver visitantes nas exposiçons,
e pediam-se os primeiros vinhos no bar da festa. Ademais,
iam chegando os representantes de colectivos para a Feira
de Material Ambientalista. A ADEGA foi-lhe impossível
acudir, e finalmente só se contou com a presença
da Asociación pola Defensa da Ría de Ponte
Vedra, a Asociación para a Defensa da Natureza do
Condado (ADENCO) e a Plataforma en Defensa do Miño.
Seguindo a linha de fazer coincidir as temáticas
de cada ano com as actividades programadas, a SCD Condado
organizou umha mostra de fotografia sobre os rios, com imagens
de Afonso G. Sestelo (Visións do Miño), da
Asociación de Pescadores da Ulloa (Non aos encoros.
Fotografías das Torrentes de Mácara) e com
umha montagem colectiva com imagens de protestas na defesa
dos rios (A resistência contra as barragens). Houvo
ademais pintura (com quadros do Grupo de Artistas Luso-Galegos
e do ponte vedrês Augusto Fontám) e escultura
(as talhas em madeira de Serra).
Volvendo à manhá, com a chegada das primeiras
poetas celebrou-se a assinatura de livros, com pouco sucesso,
mas com a confraternizaçom das que horas mais tarde
recitariam as suas criaçons no Festival Poético-Musical.
Mentres, Os Seis do Condado percorriam as paróquias
de Salvaterra anunciando a festa da tarde e animando a vila.
Ademais, o comboio de baixa velocidade levava aos vistantes
a percorrer umha e outra beira do Minho, num percurso por
Salvaterra e Monção. Mais perto do meio-dia,
com a chegada dos caminhantes de um roteiro organizado pola
associaçom cultural Galeguiza de Ponte Areas e a
Coordenadora Galega de Roteiros, começava a conferência
sobre os rios que ofreceu o militante ambientalista Xavier
Simón, da Plataforma em Defesa do Minho, onde explicou
as particularidades da luita contra as agressons ao meio
no contexto deste rio.
Os poetas fôrom convidados, junto com o Director
Geral de Criaçom e Difussom Cultural, Xosé
Luis Bará, a umha visita à Adega de Filhaboa,
e ao chegarem começava o jantar para organizaçom
e participantes. A carne ao caldeiro sentou bem aos convidados,
que corrérom a deitar-se mesmo no rio, ao tempo que,
sem parar a actividade, começava a Festa Infantil.
Aeromodelismo, ultraligeiros, títeres, e umha convidada
especial, Paula Carballeira, à que nom forom ver
só os nenos, senom que também acudirom um
bom número de maiores, entre eles o apresentador
desta ediçom do Festival da Poesia, Quico Cadaval,
que infelizmente chegou recém rematara. Ao tempo,
os nenos puiderom dar também un passeio polo rio
nas piráguas de Arrepións, e fôrom muitos
os que se animárom com a boa tarde que se apresentou.
Às oito da tarde, Os Carunchos rematavan de provar,
justo para dar passo a Quico Cadaval, que arrancou com umha
especial inspiraçom para contos, anecdotas e jogos
de palavras (mesmo em inglês). O primeiro grupo, Os
Carunchos. O patio de cadeiras cheio de gente a ouvir, a
barra do bar cheia de gente... também a ouvir. Após
a actuaçom, os poemas de Afonso Pexegueiro, José
Viale Moutinho e María Comesaña. Esta última
um fato de nervos, bem superados no cenário a caróm
de dous dos grandes. Volta de Quico Cadaval, e actuaçom
de A Quenlla com o Miro Casabella, e umha outra intervençom
de luxo e inesperada: Xosé Neira Vilas, de volta
no festival, ao que alá polo ano 82 escrevera umha
carta a modo de saudaçom desde a Havana, e no que
tantas vezes tem estado como convidado. A sua idade nom
lhe impediu a presença no festival, ao contrário
que outros poetas que, por motivos de saúde, nom
puiderom estar na festa da poesia. Um saúdo para
María do Carmo Kruckenberg, Luz Pozo Garza e Bernardino
Graña, clásicos no festival, doentes o 3 de
Setembro. Rematada a actuaçom d´A Quenlla,
com um Mini afeitado por umha aposta com motivos electorais,
umha nova tanda de poetas. Sucedérom-se a contundência
de María Cabrera, convidada catalá, a humilde
seriedade de José Luis Otamendi, traduzido por Carlos
Quiroga e lido por Nerea, e umha incorporaçom de
última hora: a leitura de um poema de Manuel María
traduzido ao catalám por Eduard del Castillo, responsável
de que María Cabrera estivesse no festival.
A essa altura, já caída a noite, começava
o ambiente de verbena. Após um conto de terror e
humor em homenagem ao Milucho, Quico Cadaval apresentou
aos cabo-verdianos Nancy Vieira, música quente e
doces vozes que sacárom a bailar a mais de dous.
Para rematar com a poesia, da que alguns ainda podiam comprender
partes, subírom ao cenário “um grupo
de poetas de três nacioanlidades” em verbas
do Cadaval, “Íñigo Aranbarri, desde
Euskal Herria, Antón Lopo, da Galiza, e Mário
Herrero, directamente chegado da Corunha”. Poemas
mais animados para dar passo ao fecho do Festival com um
grupo incondicional, A Matraca Perversa, festa, pachanga
e “que trema o Manu Chao” segundo Quico Cadaval,
que despedia umha ediçom do Festival na que o Minho
foi, mais que nunca, o protagonista.
Irene Cancelas
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