Correio do Minho
Por terra e pelo rio cerca de 250 pessoas, entre galegos
e portugueses, envergaram t-shirts brancas com os slogans
“Rio Minho é vida” e “Barragens
não”, numa manifestação que demonstra
unanimidade em ambas as margens na rejeição
à pretensão da construção de
três mini-hídricas no troço internacional
do Minho, entre Melgaço e Monção.
A Festa da Cultura de Melgaço foi a alavanca para
esta acção, que congregou diversas associações
ambientalistas que se batem pela defesa do rio Minho, pela
sua preservação «selvagem», assim
como dos seus recursos naturais e patrimoniais.
Os manifestantes, que partiram da praça fronteira
à Câmara Municipal, dividiram-se em dois grupos:
os molhados, que fizeram a descida em barcos de rafting,
e os secos, que percorreram o trilho das pesqueiras. O grupo
voltou a juntar-se, entre manifestações de
regozijo e slogans contra as barragens, junto à ponte
internacional de Peso-Arbo.
O galego Jorge Palmas, que fez a descida em canoa, aderiu
porque não quer perder um espaço natural que
lhe proporciona o gozo do seu desporto favorito e que, com
a construção das mini-hídricas, ficaria
perdido.
Rui Solheiro, o autarca de Melgaço, que fez o percurso
dos “secos”, estava satisfeito com a «boa
adesão das associações da ambas as
margens», em particular pela adesão galega,
mesmo dos municípios, o que não tinha ocorrido
aquando da contestação ao projecto da barragem
de Cela, no final da década de 90.
Os municípios do vale do Minho, que já deliberaram
a «rejeição total» ao projecto,
vão lutar pela «revogação do
acordo entre Portugal e Espanha» que prevê,
desde 1968, a construção deste equipamento
hidroeléctrico no rio Minho. Entretanto, aguardam
que, depois das férias de Verão, seja convocada
a reunião do Conselho de Bacia do Rio Minho, no qual
esperam ver cumprida a promessa da presença de um
membro do Governo da tutela do am-biente.
Existem alternativas viáveis
A Liga para Protecção da Natureza (LPN) apoiou
esta manifestação porque o projecto é
«contra-producente» e as consequências
são idênticas ou superiores às do anterior
projecto. Esta manifestação faz-se sentir
ao nível ambiental (paisagem, habitats e espécies
piscícolas migratórias, como a lampreia, o
sável e o salmão) e sócio-económico,
particularmente nesse «ícone de competição
regional» que é o vinho Alvarinho, podendo
vir a ser descaracterizado. Ainda neste sector, José
Manuel Alho chama a atenção para o desenvolvimento
que se tem registado no domínio do turismo de aventura,
como as descidas do rio em rafting, e turismo de natureza.
Este dirigente da LPN assegura que já deu conhecimento
aos governantes das alternativas a esta «insistência»
em construir novos equipamentos, que passam por uma «optimização
da produção das actuais barragens» e
uma aposta clara num «plano de efi-ciência energética
e redução de consumos». Para José
Manuel Alho, os argumentos da tutela para continuar estas
apostas são «preguiçosos».
Para Pedro Correia, delegação de Viana do
Castelo da “Quercus”, esta manifestação
serviu para «encontrar as diferentes associações
e forças e reforçar a plataforma para o futuro».
Esta associação, até agora, não
tem estado directamente envolvida neste processo, muito
por culpa da falta de recursos humanos, embora tenha «subscrito
as preocupações dos municípios e das
suas populações».
«Não se justifica a produção
energética a partir de barragens quando há
projectos de parques [eólicos] que vão produzir
igual ou mais energia», argumenta Pedro Correia, defendendo
que se deixe viver este troço do rio Minho que integra
a Rede Natura 2000. |